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| Turma das Polêmicas |
Passa das 22hs e em
Faxinal do Céu, interior do Paraná, ando pela rua deserta. O frio é tão intenso
que quase não sinto meu próprio corpo, tão apertado que está dentro do casaco.
A natureza é intensa
também. Enquanto ando pela rua vazia, ouço o vento que em Faxinal tem um poder…
É um som tão forte, tão alto, tão profundo. É como a força divina entre as
Araucárias nos lembrando do nosso pequeno tamanho diante da perfeição da
criação.
Há muito tempo ouvi
falar deste centro de treinamento do governo estadual que fica isolado de tudo.
Não funcionam os celulares, quase não há internet e uma intensa programação
durante o dia e parte das noites nos coloca em outro universo. Quase 500
pessoas passam por uma semana que funciona como um “workshock”. É tudo intenso
em Faxinal…
Estou por estes lados
para dar uma série de oficinas sobre cultura popular para as educadoras(es) e
coordenadoras(es) de um projeto que começou em 2009 e tem a missão de criar
mais leitores.
São os Círculos de Leituras. O projeto é um braço do Paraná
Alfabetizado, programa do estado para alfabetização de jovens e adultos.
Nos Círculos, quem já
sabe ler e escrever se encontra para ler em conjunto, se aproxima do livro e
aproveita a alegria de pegar em um texto e fazer sua própria viagem pelo
conhecimento, pela cultura, pelas emoções.
Ao longo desta semana
conheci homens e mulheres que em suas cidades estão cooperando para a leitura e
para a vida das pessoas. Foram relatos emocionantes que marcaram a todos,
professores e alunos.
Dos bolinhos de chuva
mágicos da mãe da Diva à folia de Reis do marido da Maria Elza, das canções da
Leopoldina (que na melhor idade vai pra frente de uma sala de aula pela
primeira vez na vida!) à biblioteca da Terê em Maripá (que tem o livro das
árvores dos professores Ticuna), foram muitas as histórias que lemos nas mãos
das pessoas que contaram das festas, das danças, dos livros e das muitas
dificuldades do dia a dia.
Da terra à leitura, saio
desta semana com a impressão dolorosa que o interior pode se diluir, que as
tradições populares do Brasil andam por aí ao nosso alcance e por vezes, não
vemos.
A professora Maria
Fiorato, contou-nos uma história que um aluno contou em sala. Falava de uma
tradicional mistura do interior para dar brilho ao chão das casas, feita de
barro, cinzas e excremento de gado. O aluno contou que sua avó, que usava a tal
mistura, tinha o hábito de lustrar a cozinha fazendo desenhos para deixar mais
bonito o trabalho. Começava pelos cantos e ia desenhando uma moldura de “SSS”
no cômodo. Depois fazia flores para preencher, enfeitando a limpeza e a vida.
A professora concluiu
emocionada que um indivíduo desses, para ela, era um produtor de cultura.
Também acho e reconto aqui a história pra me lembrar que a gente sempre pode
colocar mais arte na vida.
Saio de Faxinal pensando
nas perdas e nos ganhos, nas dificuldades e nas alegrias, nas pessoas que vão
levar estas histórias para seus Círculos de Leituras, alguns nas cidades,
outros no campo, outros em assentamentos do MST, outros em aldeias indígenas e
também em quilombos.
Lembro dos rostos, das
conversas, das muitas vidas, muitas terras… Sonho com as muitas histórias que
ainda vão ser contadas por todos nós.
Ouço de novo o sopro
poderoso da criação que rondou minhas noites em Faxinal e fico contente por ter
tido a oportunidade de mais este encontro com a diversidade humana, com o que
nos faz iguais e diferentes.
Deixo aqui as nossas
fotos das turmas, para deixar nas imagens, a história de cada um.
Um abraço apertado a
todos os alunos, professores e organizadores que passaram pelas oficinas.
Boas leituras e até
breve!

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